terça-feira, 26 de setembro de 2017

Mea-culpa


Mea-culpa

As imagens veiculadas na mídia, do menino africano de dois anos de idade que estava vivendo sozinho nas ruas da Nigéria, sobrevivendo com restos de comida, abandonado pelos próprios pais que o acusavam de bruxaria, não me saem da cabeça. 
 
A humanidade está doente! 
 
Sei que tudo é certo, mas custo a crer que esses atos, de tamanha maldade, sejam apenas reflexos do carma acumulado pela criança, que ela esteja apenas colhendo o que, outrora, plantou! 
 
Sinto que existe algum elemento a mais agindo como fonte potencializadora de tanta dor.  

E o desalento não tem limites, nem fronteiras. 
 
O mundo todo parece envolto de uma névoa de poeira alucinógena, que vem cegando os últimos que enxergavam, que vem calando os últimos que carregavam palavras de generosidade, que vem adormecendo os últimos que resistiam acordados. 
 
As ruas da cidade ecoam angústias, medos e clamores desesperados. 
 
A corrupção se faz presente em todas as esferas dos poderes e repartições político-administrativas. 
 
A certeza da impunidade fortalece o braço do malfeitor. 
 
Vidas inocentes sendo ceifadas, todos os dias, em vão.

Tomado pela revolta perguntei:-
- De quem é a culpa por tanto sofrimento?

- A culpa é Sua! - lá de longe, surge a voz do mestre espiritual.

Pegou-me completamente de surpresa. 
 
Fiquei contrariado! 
 
Ele, sempre justo, sábio, sereno e complacente, desta vez não aliviou minha responsabilidade, não poupou palavras. 
 
E continuou:-
- É fácil perceber o quanto bem eu faço, o quanto contagio as pessoas e envolvo o ambiente de luz e boas energias naqueles dias em que acordo bem, animado, sereno, calmo e cheio de amor pra dar. 
 
Contudo, em geral, não somos capazes de perceber o quanto emporcalhamos o mundo quando estamos de mau humor e irritados, quando falamos ou pensamos mal de alguém, o quanto tornamos densa a energia e, quanto combustível do mal lançamos aos ares. 
 
Não temos noção do quanto é nocivo para o cosmos os nossos atos de maldade, egoísmo, inveja e raiva.

Encontrei-me, mais uma vez, decepcionado! 
 
Descobri que também sou culpado por todas as desgraças que acometem o mundo. 
 
Eu pensava estar à margem desses fatos, mas, na verdade, estou no centro, sou coautor de toda dor.

A mente humana é tão conveniente e seletiva. 
 
Minhas conquistas e vitórias são frutos de toda a minha entrega por tal causa, são as retribuições do mundo por minha dedicação e sabedoria no manejo da vida – isso eu consigo compreender de primeira, sem ser necessário pensar. 
 
No entanto, na derrota, sempre me fica a impressão de que todos faltaram quando mais precisei - meus amigos, minha família - que minhas provações são maiores que a dos outros, que o mundo foi cruel perante meus anseios.

Meu dedo esteve junto naquele gatilho, que disparou na direção de outra vítima inocente. 
 
A verdade é que carrego à culpa de tudo àquilo que minha alma sentiu, mas, meu coração não enxergou. 
 
Sou, no mínimo, cúmplice de todas as injustiças e maldades que acontecem no mundo.

Depois de tantas reflexões um grande vazio me preencheu!

Eu sabia que toda minha ação causava uma reação ao mundo, porém, nunca me dei conta de que meus atos, pensamentos e sentimentos pudessem influir tão diretamente na vida do outro. 
 
Comentei isso com o mestre espiritual, ao que ele, retoricamente, complementou:

- Somos todos, em essência, seres de luz, de paz, do bem...  
 
Contudo, vez ou outra, por nossas falhas humanas, produzimos energia maléfica, negativa, que, por sua vez, fluirá em todas as direções. 
 
E, essa energia, afetará desde a mais pura alma até aquele ser humano mais fragilizado, que já sobrevive no limite inferior de seu caráter, perambulando pela face escura da vida, devido a uma série de experiências e escolhas equivocadas tomadas ao longo de sua existência. 
 
E este último, munido da energia ruim que acabou de absorver do mundo, irá atacar o primeiro que cruzar seu caminho (semelhante a uma serpente em sua condição de animal irracional), para se defender, pois sente que o contato com um ser que vibra numa energia diferente da sua representa perigo, um risco para sua integridade, para a manutenção de sua ilusória zona de conforto. 
 
O medo nos devolve ao mundo irracional - o medo, a falta de fé, o egoísmo. 
 
É assim que contribuímos para com a falha do outro, incentivando ações de maldades alheias. 
 
Assim fomentamos o mal, a dor, o sofrimento.

Somos vítimas. 
Vítimas de nossos próprios erros!

Provavelmente meu espírito ainda levará muitos séculos para compreender e aceitar tudo isso plenamente. 
 
Talvez nunca venha a compreender! 
 
Mas, o tempo urge! 
 
É preciso recomeçar agora, errando menos, crendo mais em Deus e em seu poder transformador.

Algumas práticas simples nos ajudam a manter boas vibrações, como, por exemplo, o exercício da gratidão, que nos retira da ciranda das queixas e amarguras; da compaixão, que nos traz a paz do sentimento de que nossos problemas não são maiores do que os do próximo; da amorosidade, que leva embora a aura cinza que nos envolve, abrindo espaço para todas as cores do mágico mundo que nos rodeia; do perdão, que quebra ciclos ruins, elos viciosos, traumas e ressentimentos inúteis.

Só somos capazes de emanar àquilo que produzimos.
 
No fundo, tudo é tão simples e fácil. 
 
Requer apenas amor e entrega! 
 
Ainda assim, infelizmente e sistematicamente, optamos por fazer o mal, esquecendo tudo que a vida tem nos ensinado, pacientemente, ao longo das tantas existências de nossa alma.

(...)

Felizmente, o menino nigeriano que vagava abandonado, desnutrido e sozinho pelas ruas, após pagar muito mais do que devia ao mundo, foi resgatado por uma voluntária, que dedica a missão de sua vida ao acolhimento de crianças vítimas de superstição na África. 
 
A criança ganhou um lar, pais carinhosos e protetores e vários irmãos para brincar. 
 
Recebeu o nome de Hope!

O resgate do pequeno Hope simboliza mais do que o fim de um carma terrível e do que a correção de uma grande injustiça social. 
 
Representa, assim como o significado de seu nome, esperança! 

Esperança, que precisamos cultivar, de que todos os maltratados e injustiçados abandonados pelo mundo, também terão sua oportunidade de serem resgatados, de recuperarem sua humanidade. 
 
E mais do que esperança, precisamos ajudar a pavimentar esse caminho de libertação, com sentimentos, atitudes e intenções puras e repletas de amor.

Além disso, quando sentirmos que nós mesmos nos desviamos fortemente do caminho, precisamos também querer ser resgatados, assim como Hope. 
 
Precisamos querer evoluir, alimentar nossa alma para tentar fazer o bem e evitar a proliferação do mal, com uma maior consciência. 
 
É preciso permitir que mais magia abarque nossas vidas e que os bons presságios e intuições se sobressaiam, mais frequentemente, a nossa fria racionalidade durante nossas escolhas. 
 
Por mais que as garras das trevas estejam sempre à espreita, existe uma luz que nunca se apaga.

Depois de muito ver da vida, o homem simples aprendeu que cada ato seu se refletirá por toda humanidade e, por isso, sente os sinais do mundo com serenidade antes de pensar, pensa antes de agir e só age se for por amor.

Resgate a si mesmo, ao menor sinal de fraqueza!

Julius
 
 

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