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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Depressão Causada Por Disfunção Hormonal da Tireoide


Depressão Causada Por Disfunção Hormonal da Tireoide 

Se a tireoide está a funcionar inadequadamente, costumam ocorrer alterações acentuadas no quadro emocional e a pessoa poderá ficar depressiva. 
Convém estar alerta e fazer os exames necessários. 
É preciso regulá-la através da medicação adequada. 
Por isso resolvemos redivulgar a esclarecedora entrevista fornecida a nós por Dr. Mateus Andrea Angelucci, médico psiquiatra e psicoterapeuta, a qual constava no extinto site Vida e Harmonia.

Depressão Motivada Por Disfunção Hormonal

Pergunta:- Pedimos que nos oriente sobre a importância dos hormônios tireoideanos.

Dr. Mateus:- Os hormônios tireoideanos são muito importantes uma vez que controlam o crescimento e diferenciação das células do organismo e regulam seu metabolismo energético (principalmente do sistema cardiovascular, sistema muscular, sistema nervoso central). 
Considerando o impacto das doenças de tireóide na vida do indivíduo, a Associação Americana de Tireóide recomenda uma triagem hormonal a cada 5 anos a partir dos 35 anos com o objetivo de se detectar alterações em seu funcionamento.

Pergunta:- Quais os hormônios produzidos pela tireóide? 
O hipotireoidismo pode causar depressão?

Dr. Mateus:- A tireóide é uma glândula do corpo humano localizada na parte anterior do pescoço e é responsável pela regularização do metabolismo energético do organismo. 
Ela produz 2 tipos de hormônios:-
- A tiroxina (T4) e 
- A triiodotironina (T3). 
O mau funcionamento da tireóide pode produzir vários sintomas físicos e neuropsiquiátricos. 
Quando houver hipotireoidismo (baixo funcionamento) o indivíduo apresenta ganho de peso, voz rouca, cabelos finos e secos, constipação intestinal, pele seca, bócio ('papo' ou dilatação no pescoço), perda da parte lateral da sobrancelha, inchaço na face, intolerância ao frio, sintomas depressivos e nos casos mais graves, idéias de suicídio e paranóia (crença de estar sendo perseguido). 
O indivíduo queixa-se de que está fraco, lento para fazer suas atividades diárias, apático, triste e com dificuldades de memória.
  
Pergunta:- Vemos pessoas buscando ajuda espiritual para a depressão da qual são vítimas. 
Já de início, algumas relatam que estão fazendo o tratamento com o psiquiatra, mas que os remédios não fazem efeito. 
Às vezes, o tratamento vem sendo feito há mais de um ano. 
Ao questionarmos tais pessoas sobre o exame da tireóide, as mesmas, muitas vezes dizem que o exame da tireóide não foi solicitado. 
Nossa pergunta é:-
- Em todos os casos de depressão é aconselhável fazer o exame da tireóide?

Dr. Mateus:- Em todo quadro depressivo é necessário descartar clinica e laboratorialmente causas orgânicas, ou seja,  doenças físicas que possam estar produzindo tal quadro. 
O hipotireoidismo pode ocasionar um quadro semelhante ao da depressão e neste caso define-se o episódio depressivo como secundário a uma condição médica geral. 
Desta forma, torna-se obrigatório o tratamento da causa de base (hipotireoidismo) com reposição hormonal.

Pergunta:- Vimos um caso em que somente na terceira vez que a paciente fez o exame da tireóide, é que apareceu no resultado a alteração hormonal. 
É aconselhável então repetir o exame, se a pessoa sentir-se depressiva e o exame não acusar nada?

Dr. Mateus:- Em geral, basta somente um exame laboratorial para que se detectem alterações no funcionamento glandular. 
Os testes de função tireóidea mais comuns são a dosagem de TSH (hormônio estimulador da tireóide) e T4l (tiroxina livre) no sangue. 
No hipotireoidismo o TSH estará acima dos níveis normais e o T4l estará abaixo. 
Se houver dúvida quanto ao resultado do exame ou os sinais/sintomas físicos forem muito sugestivos de hipotireoidismo é recomendável que se repita o exame em outro laboratório. 
Pergunta:- Num outro caso, após intenso tratamento de depressão, sem resultado, a paciente, ao mudar de médico, teve dele o pedido de exame da tireóide. 
Ficou detectado que a tireóide dela havia atrofiado. 
Poderia nos fornecer alguma informação sobre esse aspecto? 

Dr. Mateus:- Provavelmente, neste caso, a atrofia da tireóide foi causada por um tipo de tireoidite que acontece quando os próprios anticorpos do indivíduo provocam uma inflamação na glândula acabando por destruí-la. 
Há uma incidência maior em mulheres e a evolução é lenta podendo levar à cura espontânea ou à atrofia glandular com acentuado hipotireoidismo.


Pergunta:- Quando a depressão está bem avançada, sendo que o paciente fez inutilmente tratamento alopático com anti-depressivos, mas não foi solicitado o exame da tireóide, se for solicitado nesse estágio avançado e o resultado deixar transparecer que a glândula está realmente com mau funcionamento, a depressão pode desaparecer se a tireóide for tratada adequadamente?

Dr. Mateus:- Sim, geralmente há uma remissão total dos sintomas depressivos e físicos com a reposição hormonal, no entanto, cerca de 10% dos pacientes têm sintomas neuropsiquiátricos residuais após o tratamento. 
Nestes casos, torna-se obrigatório o uso de antidepressivos associado ao tratamento hormonal.
  
Pergunta:- Pode ocorrer depressão em homens, devido ao desequilíbrio da tireóide? 
Se a resposta for afirmativa, existe ou não hormônios para eles?

Dr. Mateus:- As doenças da tireóide são mais comuns em mulheres, mas os homens também são acometidos e para ambos o tratamento consiste na reposição hormonal.

Pergunta:- Gostaríamos de saber se é verdade que a depressão precisa ser tratada a vida toda.

Dr. Mateus:- Em geral, os pacientes que respondem a um determinado antidepressivo devem permanecer recebendo esta medicação por cerca de 6 meses a um ano. 
O tratamento por este tempo reduz acentuadamente os riscos de recaída. 
Os pacientes que tiveram 3 ou mais episódios depressivos de gravidade considerável ou que tiverem, pelo menos, dois episódios nos últimos cinco anos devem receber tratamento de manutenção a longo prazo com antidepressivos, além das medidas como psicoterapia, orientações para mudanças no estilo de vida e adequado suporte familiar/social.
  
Pergunta:- Soubemos do caso de uma mulher com depressão que não desejou se tratar. 
Recusou-se a qualquer tipo de tratamento. 
Após algum tempo ela morreu e os familiares disseram que a causa foi a depressão, que chegou num estágio incontrolável. 
Isso é mesmo possível? 
A depressão pode conduzir à morte?

Dr. Mateus:- Sim, a depressão pode ser fatal uma vez que o indivíduo passa a não se cuidar adequadamente, pode se envolver com uso de álcool/drogas ilícitas, alimenta-se pouco e sua resistência imunológica tende a se enfraquecer predispondo à outras doenças de natureza infecciosas ou tumorais. 
Além disso, o deprimido pode cultivar idéias autodestrutivas que levam-no a tentativas de suicídio cada vez mais graves.
  
Pergunta:- Quando os sintomas podem ser caracterizados como depressão avançada?

Dr. Mateus:- A depressão grave é caracterizada por intensos e persistentes sentimentos negativos (culpa, autodesvalorização, ruína, abandono) associados a idéias/tentativas de suicídio, delírios (interpretações distorcidas da realidade ou falsas crenças a respeito de si mesmo, das pessoas ou do ambiente) ou alucinações (visões e audição de vozes irreais).
  
Pergunta:- Como é o tratamento da depressão?

Dr. Mateus:- O tratamento da depressão consiste no uso de medicações antidepressivas, psicoterapia e orientação familiar. 
As medicações agem nos sintomas depressivos retirando o indivíduo da fase aguda da doença; são usadas durante um certo período de tempo para prevenirem recaídas e recorrências. 
A psicoterapia auxilia o indivíduo a compreender as causas internas (psicológicas) e externas (ambientais) que levaram-no a um episódio depressivo; a psicoterapia promove apoio ao doente em um ambiente de confidencialidade e sigilo. 
A orientação familiar tem como objetivo esclarecer a família sobre o estado do indivíduo a fim de que esta auxilie-o da melhor forma na superação de suas dificuldades e conflitos.
  
Pergunta:- Tem fundamento a idéia de que o ser humano, atualmente, precisa entender um pouco de doenças para questionar o médico que o trata? 
Temos ouvido queixas constantes a respeito da falta de interação entre médico e paciente. 
Acha aconselhável o paciente insistir nas informações que deseja?



Dr. Mateus:- Acho muito positivo os pacientes buscarem informações sérias e fidedignas sobre tudo o que interessa à sua saúde física e mental. 
Geralmente os pacientes mais esclarecidos interagem de maneira mais dinâmica com seu médico, questionando-o sobre o diagnóstico e possibilidades de tratamento. 
O médico, por sua vez, deve estar atento às dúvidas e angústias do paciente e delas extrair o verdadeiro significado que a doença tem para o mesmo.




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