sábado, 11 de março de 2017

Capacete da Esperança


Capacete da Esperança

“Tendo por capacete a esperança na salvação.” – Paulo. 
(1ª Epístola aos Tessalonicenses, 5:8.)
O capacete é a defesa da cabeça em que a vida situa a sede de manifestação do pensamento e Paulo não podia lembrar outro símbolo mais adequado à vestidura do cérebro cristão, além do capacete da esperança na salvação.
Se o sentimento, muitas vezes, está sujeito aos ataques da cólera violenta, o raciocínio, em muitas ocasiões, sofre o assédio do desânimo, à frente da luta pela vitória do bem, que não pode esmorecer em tempo algum.
Raios anestesiantes são desfechados sobre o ânimo dos aprendizes por todas as forças contrárias ao Evangelho salvador.
A exigência de todos e a indiferença de muitos procuram cristalizar a energia do discípulo, dispersando-lhe os impulsos nobres ou neutralizando-lhe os ideais de renovação.
Contudo, é imprescindível esperar sempre o desenvolvimento dos princípios latentes do bem, ainda mesmo quando o mal transitório estenda raízes em todas as direções.
É necessário esperar o fortalecimento do fraco, à maneira do lavrador que não perde a confiança nos grelos tenros; aguardar a alegria e a coragem dos tristes, com a mesma expectativa do floricultor que conta com revelações de perfume e beleza no jardim cheio de ramos nus.
É imperioso reconhecer, todavia, que a serenidade do cristão nunca representa atitude inoperante, por agir e melhorar continua damente pessoas, coisas e situações, em todas as particularidades do caminho.
Por isso mesmo, talvez, o apóstolo não se refere à touca protetora.
Chapéu, quase sempre, indica passeio, descanso, lazer, quando não defina convenção no traje exterior, de acordo com a moda estabelecida.
Capacete, porém, é indumentária de luta, esforço, defensiva.
E o discípulo de Jesus é um combatente efetivo contra o mal, que não dispõe de muito tempo para cogitar de si mesmo, nem pode exigir demasiado repouso, quando sabe que o próprio Mestre permanece em trabalho ativo e edificante.
Resguardemos, pois, o nosso pensamento com o capacete da esperança fiel e prossigamos para a vitória suprema do bem.
Emmanuel
Francisco Cândido Xavier

Vê e Segue


Vê e Segue


“Uma coisa sei:-
- Eu era cego e agora vejo.” – (João, 9:25.)
Apesar de o trabalho renovador do Evangelho, nos círculos da consolação e da pregação, desdobrar-se, diante das massas, semeando
milagres de reconforto na alma do povo, o serviço sutil e quase desconhecido do aproveitamento da Boa Nova é sempre individual e intransferível.
Os aprendizes da vida cristã, na atividade vulgar do caminho, desfrutam do conceito de normalidade, mas se não gozam de vantagens observáveis no imediatismo da experiência humana, quais sejam as da consolação, do estímulo ou da prosperidade material, de maneira a gravarem o ensinamento vivo de Jesus, nas próprias vidas, passam à categoria de pessoas estranhas, muita vez ante os próprios companheiros de ministério.
Chegado a semelhante posição, e se sabe aproveitar a sublime oportunidade pela submissão e diligência, o discípulo experimenta completa transposição de plano.
Modifica a tabela de valores que o rodeiam.
Sabe onde se ocultam os fundamentos eternos.
Descortina esferas novas de luta, através da visão interior que outros não compreendem.
Descobre diferentes motivos de elevação, por intermédio do sacrifício pessoal, e identifica fontes mais altas de incentivo ao esforço próprio.
Em vista disso, freqüentemente provoca discussões acesas, com respeito à atitude que adota à frente de Jesus.
Por ver, com mais clareza, as instruções reveladas pelo Mestre, é tido à conta de fanático ou retrógrado, idiota ou louco.
Se, porém, procuras efetivamente a redenção com o Senhor, prossegue seguro de ti mesmo; repara, sem aflição e sem desânimo, as contendas que a ação genuína de Jesus em ti recebe de corações incompreensivos e estacionários, repete as palavras do cego que alcançou a visão e segue para diante.

Emmanuel
Francisco Cândido Xavier

sexta-feira, 10 de março de 2017

Couraça da Caridade


Couraça da  Caridade


“Sejamos sóbrios, vestindo-nos da couraça da fé e da caridade.” – Paulo. (1ª Epístola aos Tessalonicenses, 5:8.)
Paulo foi infinitamente sábio quando aconselhou a couraça da caridade aos trabalhadores da luz.
Em favor do êxito desejável na missão de amor a que nos propomos, em companhia do Cristo, antes de tudo é indispensável preservar o coração.
E se não agasalharmos a fonte do sentimento nas vibrações do ardente amor, servidos por uma compreensão elevada nos círculos da experiência santificante em que nos debatemos na arena terrestre, é muito difícil vencer na tarefa que o Senhor nos confia.
A irritação permanente, diante da ignorância, adia as vantagens do ensino benéfico.
A indignação excessiva, perante a fraqueza, extermina os germes frágeis da virtude.
A ira freqüente, no campo da luta, pode multiplicar-nos os inimigos sem qualquer proveito para a obra a que nos devotamos.
A severidade demasiada, à frente de pessoas ainda estranhas aos benefícios da disciplina, faz-se acompanhar de efeitos contraproducentes por escassez de educação do meio em que se manifesta.
Compreendendo, assim, que o cristão se acha num verdadeiro estado de luta, em que, por vezes, somos defrontados por sugestões da irritação intemperante, da indignação inoportuna, da ira injustificada ou da severidade destrutiva, o apóstolo dos gentios receitou-nos a couraça da caridade, por sentinela defensiva dos órgãos centrais de expressão da vida.
É indispensável armar o coração de infinito entendimento fraterno para atender ao ministério em que nos empenhamos.
A convicção e o entusiasmo da fé bastam para começar honrosamente, mas para continuar o serviço, e terminá-lo com êxito, ninguém poderá prescindir da caridade paciente, benigna e invencível.

Emmanuel
Francisco Cândido Xavier


Além dos outros



Além dos Outros 

“Não fazem os publicanos também o mesmo?” – Jesus. (Mateus, 5:46.)

Trabalhar no horário comum irrepreensivelmente, cuidar dos deveres domésticos, satisfazer exigências legais e exercitar a correção de proceder, fazendo o bastante na esfera das obrigações inadiáveis, são tarefas peculiares a crentes e descrentes na senda diária.
Jesus, contudo, espera algo mais do discípulo.
Correspondes aos impositivos do trabalho diuturno, criando coragem, alegria e estímulo, em derredor de ti?
Sabes improvisar o bem, onde outras pessoas se mostraram infrutíferas?
Aproveitas, com êxito, o material que outrem desprezou por imprestável?
Aguardas, com paciência, onde outros desesperaram?
Na posição de crente, conservas o espírito de serviço, onde o descrente congelou o espírito de ação?
Partilhas a alegria de teus amigos, sem inveja e sem ciúme, e participas do sofrimento de teus adversários, sem falsa superioridade e sem alarde?
Que dás de ti mesmo no ministério da caridade? Garantir o continuísmo da espécie, revelar utilidade geral e adaptar-se aos movimentos da vida são característicos dos próprios irracionais.
O homem vulgar, de muitos milênios para cá, vem comendo e bebendo, dormindo e agindo sem diferenças fundamentais, na ordem coletiva. 
De vinte séculos a esta parte, todavia, abençoada luz resplandece na Terra com os ensinamentos do Cristo, convidando-nos a escalar os cimos da espiritualidade superior. 
Nem todos a percebem, ainda, não obstante envolver a todos. 
Mas, para quantos se felicitam em suas bênçãos extraordinárias, surge o desafio do Mestre, indagando sobre o que de extraordinário estamos fazendo.


Emmanuel
Francisco Cândido Xavier


quinta-feira, 9 de março de 2017

A Boa Parte


A Boa Parte

"Maria escolheu a boa parte, que não lhe será tirada." - Jesus. 
(LUCAS, 10:42.)
Não te esqueças da "boa parte" que reside em todas as criaturas e em todas as coisas.

O fogo destrói, mas transporta consigo o elemento purificador

A pedra é contundente, mas consolida a segurança.

A ventania açoita impiedosa, todavia, ajuda a renovação.

A enxurrada é imundície, entretanto, costuma carrear o adubo indispensável à sementeira vitoriosa.

Assim também há criaturas que, em se revelando negativas em determinados setores da luta humana, são extremamente valiosas em outros. 

A apreciação unilateral é sempre ruinosa.

A imperfeição completa, tanto quanto a perfeição integral, não existem no plano em que evoluímos. 

O criminoso, acusado por toda a gente, amanhã pode ser o enfermeiro que te estende o copo dágua. 

O companheiro, no qual descobres agora uma faixa de trevas, pode ser depois o irmão sublimado que te convida ao bom exemplo. 

A tempestade da hora em que vivemos é, muitas vezes, a fonte do bem-estar das horas que vamos viver.

Busquemos o lado melhor das situações, dos acontecimentos e das pessoas. 

"Maria escolheu a boa parte, que não lhe será tirada" - disse-nos o Senhor.

Assimilemos a essência da divina lição.

Quem procura a "boa parte" e nela se detém, recolhe no campo da vida o tesouro espiritual que jamais lhe será roubado.  


Emmanuel
Francisco Cândido Xavier


Adultério e Prostituição


Adultério e Prostituição

Atire-lhe a primeira pedra aquele que estiver isento de pecado, disse Jesus.

Esta sentença faz da indulgência um dever para nós outros porque ninguém há que não necessite, para si próprio, de indulgência. 

Ela nos ensina que não devemos julgar com mais severidade os outros, do que nos julgamos a nós mesmos, nem condenar em outrem aquilo de que nos absolvemos. 

Antes de profligarmos a alguém uma falta, vejamos se a mesma censura não nos pode ser feita. 
Do item 13, do Cap. X, de O Evangelho Segundo o Espiritismo.

É curioso notar que Jesus, em se tratando de faltas e quedas, nos domínios do espírito, haja escolhido aquela da mulher, em falhas do sexo, para pronunciar a sua inolvidável sentença:-
- "Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra". 

Dir-se-ia que no rol das defecções, deserções, fraquezas e delitos do mundo, os problemas afetivos se mostram de tal modo encravados no ser humano que pessoa alguma da Terra haja escapado, no cardume das existências consecutivas, aos chamados "erros do amor".

Penetre cada um de nós os recessos da própria alma, e, se consegue apresentar comportamento irrepreensível, no imediatismo da vida prática, ante os dias que correm, indague-se, com sinceridade, quanto às próprias tendências. 

Quem não há varado transes difíceis, nas áreas do coração, no período da reencarnação em que se encontre, investigue as próprias inclinações e anseios no campo íntimo, e, em sã consciência, verificará que não se acha ausente do emaranhado de conflitos, que remanescem do acervo de lutas sexuais da Humanidade.

Desses embates multimilenares, restam, ainda, por feridas sangrentas no organismo da coletividade, o adultério que, de futuro, será classificado na patologia das doenças da alma, extinguindo-se, por fim, com remédio adequado, e a prostituição que reúne em si homens e mulheres que se entregam às relações sexuais, mediante paga, estabelecendo mercados afetivos. 

Qual ocorre aos flagelos da guerra, da pirataria, da violência homicida e da escravidão que acompanham a comunidade terrestre, há milênios, diluindo-se, muito pouco a pouco, o adultério e a prostituição ainda permanecem, na Terra, por instrumentos de prova e expiação, destinados naturalmente a desaparecer, na equação dos direitos do homem e da mulher, que se harmonizarão pelo mesmo peso, na balança do progresso e da vida. 

Note-se que o lenocínio de hoje, conquanto situado fora da lei, é o herdeiro dos bordéis autorizados por regulamentação oficial, em muitas regiões, como sucedia notadamente na Grécia e na Roma antigas, em que os estabelecimentos dessa natureza eram constantemente nutridos por levas de jovens mulheres orientais, direta ou indiretamente adquiridas, à feição de alimárias, para misteres de aluguel. 

Tantos foram os desvarios dos Espíritos em evolução no Planeta – Espíritos entre os quais muito raros de nós, os companheiros da Terra, não nos achamos incluídos - que decerto Jesus, personalizando na mulher sofredora a família humana, pronunciou a inesquecível sentença, convocando os homens, supostamente puros em matéria de sexualidade, a lançarem sobre a companheira infeliz a primeira pedra.

Evidentemente, o mundo avança para mais elevadas condições de existência.

Fenômenos de transição explodem aqui e ali, comunicando renovação. 

E, com semelhantes ocorrências, surge para as nações o problema da educação espiritual, para que a educação do sexo não se faça irrisão com palavras brilhantes mascarando a licenciosidade. 

Quando cada criatura for respeitada em seu foro íntimo, para que o amor se consagre por vínculo divino, muito mais de alma para alma que de corpo para corpo, com a dignidade do trabalho e do aperfeiçoamento pessoal luzindo na presença de cada uma, então os conceitos de adultério e prostituição se farão distanciados do cotidiano, de vez que a compreensão apaziguará o coração humano e a chamada desventura afetiva não terá razão de ser. 

Livro:- Vida e Sexo
Emmanuel
Francisco Cândido Xavier
 


quarta-feira, 8 de março de 2017

Justiça


Justiça

Faze culto a Justiça,
Sem condenar o injusto.
Delinqüentes diversos
São doentes do espírito.
Ignorância é um mal
Que pede auxílio e cura.
Agressores carregam
Obsessões ocultas.
Olha a praga e a lavoura
Quando salvas a planta.
Deus nos livra do mal,
Mas nos guarda em amor. 

 Livro:- Assim Vencerás
Emmanuel
Francisco Cândido Xavier
 

Apuros de um Morto



Olá Alma Irmã, nossas Fraternais Saudações !
Que esta mensagem chegue com nossas melhores vibrações de Paz e Saúde !!!


 Apuros de um Morto

Quando Apolinário Rezende acordou, além da morte, viu-se terrivelmente sacudido por estranha emoção.

Ouvia a esposa, D. Francina, a chamá-lo em gritos estertorosos.

E qual se fosse transportado a casa por guindaste magnético, reconheceu-se, de chofre, diante dela, que se descabelava chorosa.

- "Ingrato ! Ingrato ! - era o que a viúva dizia em pensamento, embora apenas tartamudeasse interjeições lamentosas com a boca.

Julgando no corpo de carne, Rezende, em vão, se fazia sentir.

Gritava pela companheira.

Pedia explicações.

Esmurrava a mesa em que a senhora apoiava os cotovelos.

Dona Francina, entretanto, procedia como quem lhe ignorava a presença.

O infeliz, no primeiro instante, julgou-se dementado.

Acreditava em pesadelo e queria retornar à vida comum, despertar ...

Beliscava inutilmente.

Nisso, escutou o próprio nome no andar térreo.

Despencou-se  e encontrou Maria Iza, a copeira que se habituara a estimar como sendo sua própria filha, em conversação discreta com o advogado que lhe era amigo íntimo.

O Dr. Joaquim Curado ouvia, atento a moça, que lher confidenciava uma infâmia.

A empregada, que sempre lhe recolhera a melhor atenção, não se pejava de acusá-lo, afirmando que o pequeno Samuel, o menino que lhe nascera, quatro anos antes, do coração de mãe solteira, era filho dele, Rezende.

A serviçal, no extremo da calúnia, dramatizava em pranto.

Dizia despudorada, que seu filhinho Samuel não podia privar-se da herança, que ela, em outros tempos, vivia sofrendo injuriosas cenas de ciúme, por parte da patroa, e que estava agora resolvida a colocar a questão em pratos limpos.

Apolinário cerrou os punhos e dispunha-se a esbofeteá-la, quando o causídico asseverou:-

- "Bem, desde que o Rezende morreu ... "

O pobre Espírito liberto sofreu tremendo choque.

Morrera, então ?

Que significava tudo aquilo ?

Sentia-se louco ...

Gritou desesperado, lembrando fera aguilhoada no circo, mas os dois interlocutores nem de leve lhe perceberam a reação, e o entendimento contínuo ...

Chorando copiosamente, Apolinário ficou sabendo que o inventário dos seus bens seguia em meio, que Maria Iza alegava-se seduzida por ele e exigia mais de dois milhões de cruzeiros, parte igual ao montante que se reservava a cada um de seus filhos.

O Dr. Joaquim falava em exame de sangue e pedia provas.


A moça notificou que Renato, o filho caçula de Dona Francina, fora testemunha da experiência infeliz a que se submetera, em acedendo às tentações que lhe haviam movidas pelo morto.

Aterrado, Rezende viu seu próprio filho mais novo entrar, a chamado, no parlatório doméstico, apoiando a invencionice.

O jovem, que ultrapassara os vinte e dois de idade, preocupava-o sempre, pelo caráter leviano; contudo, não foi sem espanto que passou a escutá-lo, confirmando a denúncia.

Perante o advogado, surpreendido, Renato anunciou que simplesmente tocado pela compaixão, deliberara ajudar Maria Iza, declarando que o pai, pilhado por ele em vários encontros com ela, resolvera confiar-lhe a verdade, salientando que, um dia, quando viesse a falecer, o menino Samuel não devia ser esquecido, de vez que lhe devia a paternidade.

Rezende, tomado de repugnância, desmentia tudo, até que lhe pareceu ouvir os pensamentos do filho, compreendendo, por fim, que Renato se mancomunara com a copeira, de modo a senhorear metade da importância que a ela fosse atribuída pela Justiça.

Entendeu a chantagem.

O rapaz pretendia o maior quinhão e, para isso, não vacilava enxovalhar-lhe o nome.

Abatido, procurou Reinaldo, o filho mais velho, moço de comportamento exemplar; entretanto, foi achá-lo no gabinete, conformado com a situação. 

O irmão desfechara habilmente o golpe e o primogênito preferia perder parte da herança a desrespeitar a memória do pai.

Voltou Rezende ao quarto da esposa e debalde quis confortá-la.

Dona Francina ensopara o lenço de lágrimas. 

Não chorava tanto o dinheiro de que deveria dispor. 

Lastimava a suposta infidelidade do falecido marido. Recordava todos os dias felizes, em que ambos haviam desfrutado confiança perfeita ... 

Era preciso ser desumano para que lhe mentisse, qual o fizera, dentro do próprio lar. 

Ansiava conservá-lo puro, na lembrança, viver o resto da existência preparando-se para reencontrá-lo; entretanto...

Esforçava-se Rezende para consolá-la, a procurar em si mesmo a razão por que sofria semelhante prova, quando lhe ocorreu um estalo na consciência.

Via-se recuar, recuar...

Sim, sim, Maria Iza recebera dele tão somente considerações respeitosas; contudo, Julieta surgia-lhe agora ... 

Fora-lhe a companheira da juventude, quarenta anos antes ... 

Menina de condição modesta agüentara-lhe a ingratidão. 

Cedera aos seus caprichos de moço impulsivo e passara a aguardar-lhe um filhinho, confiando no casamento. 

Examinando, porém, as próprias conveniências obrigara Julieta a sujeitar-se a vergonhoso processo abortivo e, em seguida, ao vê-la frustrada, abandonou-a na vala do meretrício.

Rezende, atormentado em dolorosas reminiscências, inquiria a si próprio se a calúnia de Maria Iza seria a resposta do destino ao sarcasmo em que lançara Julieta ... 

Onde encontrar a vítima de outra época? 

Por outro lado, ali estava Dona Francina, a reclamar-lhe assistência, e Maria Iza, a quem devia perdoar a seu turno.

Tateava o crânio em fogo.

Atravessava o primeiro dia de consciência acordada, depois da morte, e parecia estar no ínfero mental, desde muito tempo.

Caiu a noite e Rezende permaneceu aflito junto da esposa, tentando em vão, falar-lhe durante o sono ...

Manhã cedo, Dona Francina levantou-se, orou à frente da própria imagem dele, na foto de cabeceira, tomou grande ramo de flores e saiu na direção de um templo.

Apolinário seguiu-a, reconhecendo emocionado, que a esposa encomendara um ofício religioso, a benefício da sua felicidade.

Findas as preces, Dona Francina tocou para o cemitério.

Só então Rezende veio saber que a leal companheira comemorava o sexto mês de sua partida.

Cento e oitenta e três dias de inconsciência na vida espiritual!

Assombrado, fitou a esposa, que se ajoelhara à frente do seu próprio túmulo. 

Entre angustiado e curioso, inclinou-se para a lápide e soletrou espantadiço:-

- “Aqui jaz Apolinário Rezende.” 

E, em letras menores:-

- “Orai pelo descanso eterno de sua alma”.

Quando leu as palavras “descanso eterno”, Rezende passou a refletir sobre as agonias morais a que era submetido, desde a véspera, e, embora sentindo imenso desejo de chorar esqueceu a quietude do campo santo e desferiu, em desespero, enorme gargalhada ...

 

Livro:- Contos desta e Doutra Vida

IRMÃO X 

Francisco Cândido Xavier