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quarta-feira, 5 de abril de 2017

Lembrando a Parábola


Lembrando a Parábola


Ao enviar três servos de confiança para servi-Lo em propriedade distante, onde outros milhares de trabalhadores, em diversos degraus da virtude e da sabedoria, lavravam a terra em louvor de, tua grandeza divina, o Supremo Senhor chamou-os à sua presença e distribuiu com eles preciosos dons.

Afagado o primeiro, entregou-lhe cinco “talentos”, notificando:-
– Conduze contigo estes tesouros da alegria e da prosperidade. 


São eles a Saúde, a Riqueza, a Habilidade, o Discernimento e a Autoridade. 

Multiplica-os, aonde fores, em benefício dos pneus filhos e teus irmãos que, em situação inferior à tua, avergados ao solo do planeta a quem levarás minhas bênçãos, se esforçam mais intensamente.

Ao segundo servidor passou dois “talentos”, acentuando:-
– Transporta contigo esta duas preciosidades, que se destinam ao esclarecimento e auxílio do mundo a que te diriges. 


São ambas, a inteligência e o Poder. 

Estende estes patrimônios respeitáveis às minhas construções eternas.

Ao terceiro, confiou apenas um “talento”, aclarando, cuidadoso:-
– Apossa-te desta lâmpada sublime e segue. 


É a Dor, o dom celeste da iluminação espiritual, Acende-a em teu campo de trabalho, em favor de ti mesmo e dos semelhantes.

Seus raios abrem acesso aos tabernáculos divinos.

Em seguida fixou os três colaboradores que partiam e explicou:-
– Aguardá-los-ei de regresso, para as contas.

O tempo correu, célere, e veio o dia em coque os mensageiros voltaram ao pátrio lar.

O Soberano esperava-os no pórtico, esperançoso e feliz.

Findas as saudações usuais, o primeiro enviado adiantou-se e entregou-lhe dez “talentos”, relacionando:-
– Senhor, eis tuas dádivas multiplicada. 


Deste-me cinco e restituo-as em dobro. 

Respeitando a Saúde, adquiri o Tempo ; espalhando a Riqueza, aliciei a Gratidão; usando a Habilidade, recebi a Estima; movimentando o Discernimento, conquistei o Equilíbrio, e distribuindo a Autoridade em teu nome, ganhei a Ordem. 

O teu plano de júbilo e evolução foi executado.

O Senhor o abençoou-o e explicou:

– Já que foste fiel nestes negócios de pouca monta, conceder-te-ei a intendência de importantes interesses de minha casa.

Aproximou-se o segundo e depositou-lhe nas mãos quatro “talentos”, informando:-
– Senhor, recebe teus haveres multiplicados. 

Elevando a Inteligência obtive o Trabalho e, submetendo o Poder à tua vontade sábia, atraí o Progresso. 

A tua expectativa de instrução e ajuda no meu setor de atividade foi atendida.

O Pai louvou-lhe a conduta e falou, contente:-
– Já que revelaste lealdade no “pouco”, ser-te-á conferido o “muito” das grandes tarefas.

Logo após, acercou-se o terceiro e último servo da expedição e, devolvendo, intacto, o patrimônio que recebera, notificou:-
– Senhor, recolhe de volta a indesejável herança que me deste... 


Sei que és austero e exigente, que colhes o que não semeias e que ordenas por toda parte... 

Experimentando enorme dificuldade para agüentar a carga que me puseste nos ombros temendo-te o juízo, escondi-a na terra e reponho-a, agora, em tuas mãos... 

Esta dádiva é um fardo difícil de carregar... 

Constituiu-se desagradável recordação por onde passei, estorvou-me os desejos e, de modo algum, desejaria possuí-la, outra vez.

É impossível obter lucros ou vantagens com semelhante obstáculo. 


Retoma, pois, teu estranho e insuportável depósito!...

O Poderoso contemplou-o, triste, e falou, enérgico:-
– Servo mau e infiel, como poderias multiplicar minha benção se nem ao menos te deste ao esforço de examiná-la? 


Como iluminar o caminho se mantiveste a lâmpada apagada?

Tua ociosidade transformou alguns gramas de serviço benéfico em várias toneladas de angústia que doravante pesarão sobre ti. 


Criaste fantasmas que nunca existiram, multiplicaste preocupações e receios que te levaram a gritar e espernear como simples tolo, no avançado círculo de minhas obras... 

Por fim, atiraste-me o tesouro ao pântano do desespero e da revolta e vens comentar o temor e o zelo que minha presença, te infunde, quando foste tão somente preguiçoso e insensato! 

A Dor era a tua oportunidade sagrada e única de iluminação ao próprio caminho, para que a tua claridade amparasse os companheiros de luta regenerativa e salutar. 

Repeliste o dom que te confiei... 

Volta, portanto, à sombra e à desesperação que abraçaste!...

E o servo, que se perdera pela imprevidência e pela inconformação, somente entendeu o sublime valor da lâmpada do sofrimento quando se viu sozinho e desamparado, nas trevas exteriores. 

Livro:- Luz Acima
Irmão X
Francisco Cândido Xavier

quarta-feira, 8 de março de 2017

Apuros de um Morto



Olá Alma Irmã, nossas Fraternais Saudações !
Que esta mensagem chegue com nossas melhores vibrações de Paz e Saúde !!!


 Apuros de um Morto

Quando Apolinário Rezende acordou, além da morte, viu-se terrivelmente sacudido por estranha emoção.

Ouvia a esposa, D. Francina, a chamá-lo em gritos estertorosos.

E qual se fosse transportado a casa por guindaste magnético, reconheceu-se, de chofre, diante dela, que se descabelava chorosa.

- "Ingrato ! Ingrato ! - era o que a viúva dizia em pensamento, embora apenas tartamudeasse interjeições lamentosas com a boca.

Julgando no corpo de carne, Rezende, em vão, se fazia sentir.

Gritava pela companheira.

Pedia explicações.

Esmurrava a mesa em que a senhora apoiava os cotovelos.

Dona Francina, entretanto, procedia como quem lhe ignorava a presença.

O infeliz, no primeiro instante, julgou-se dementado.

Acreditava em pesadelo e queria retornar à vida comum, despertar ...

Beliscava inutilmente.

Nisso, escutou o próprio nome no andar térreo.

Despencou-se  e encontrou Maria Iza, a copeira que se habituara a estimar como sendo sua própria filha, em conversação discreta com o advogado que lhe era amigo íntimo.

O Dr. Joaquim Curado ouvia, atento a moça, que lher confidenciava uma infâmia.

A empregada, que sempre lhe recolhera a melhor atenção, não se pejava de acusá-lo, afirmando que o pequeno Samuel, o menino que lhe nascera, quatro anos antes, do coração de mãe solteira, era filho dele, Rezende.

A serviçal, no extremo da calúnia, dramatizava em pranto.

Dizia despudorada, que seu filhinho Samuel não podia privar-se da herança, que ela, em outros tempos, vivia sofrendo injuriosas cenas de ciúme, por parte da patroa, e que estava agora resolvida a colocar a questão em pratos limpos.

Apolinário cerrou os punhos e dispunha-se a esbofeteá-la, quando o causídico asseverou:-

- "Bem, desde que o Rezende morreu ... "

O pobre Espírito liberto sofreu tremendo choque.

Morrera, então ?

Que significava tudo aquilo ?

Sentia-se louco ...

Gritou desesperado, lembrando fera aguilhoada no circo, mas os dois interlocutores nem de leve lhe perceberam a reação, e o entendimento contínuo ...

Chorando copiosamente, Apolinário ficou sabendo que o inventário dos seus bens seguia em meio, que Maria Iza alegava-se seduzida por ele e exigia mais de dois milhões de cruzeiros, parte igual ao montante que se reservava a cada um de seus filhos.

O Dr. Joaquim falava em exame de sangue e pedia provas.


A moça notificou que Renato, o filho caçula de Dona Francina, fora testemunha da experiência infeliz a que se submetera, em acedendo às tentações que lhe haviam movidas pelo morto.

Aterrado, Rezende viu seu próprio filho mais novo entrar, a chamado, no parlatório doméstico, apoiando a invencionice.

O jovem, que ultrapassara os vinte e dois de idade, preocupava-o sempre, pelo caráter leviano; contudo, não foi sem espanto que passou a escutá-lo, confirmando a denúncia.

Perante o advogado, surpreendido, Renato anunciou que simplesmente tocado pela compaixão, deliberara ajudar Maria Iza, declarando que o pai, pilhado por ele em vários encontros com ela, resolvera confiar-lhe a verdade, salientando que, um dia, quando viesse a falecer, o menino Samuel não devia ser esquecido, de vez que lhe devia a paternidade.

Rezende, tomado de repugnância, desmentia tudo, até que lhe pareceu ouvir os pensamentos do filho, compreendendo, por fim, que Renato se mancomunara com a copeira, de modo a senhorear metade da importância que a ela fosse atribuída pela Justiça.

Entendeu a chantagem.

O rapaz pretendia o maior quinhão e, para isso, não vacilava enxovalhar-lhe o nome.

Abatido, procurou Reinaldo, o filho mais velho, moço de comportamento exemplar; entretanto, foi achá-lo no gabinete, conformado com a situação. 

O irmão desfechara habilmente o golpe e o primogênito preferia perder parte da herança a desrespeitar a memória do pai.

Voltou Rezende ao quarto da esposa e debalde quis confortá-la.

Dona Francina ensopara o lenço de lágrimas. 

Não chorava tanto o dinheiro de que deveria dispor. 

Lastimava a suposta infidelidade do falecido marido. Recordava todos os dias felizes, em que ambos haviam desfrutado confiança perfeita ... 

Era preciso ser desumano para que lhe mentisse, qual o fizera, dentro do próprio lar. 

Ansiava conservá-lo puro, na lembrança, viver o resto da existência preparando-se para reencontrá-lo; entretanto...

Esforçava-se Rezende para consolá-la, a procurar em si mesmo a razão por que sofria semelhante prova, quando lhe ocorreu um estalo na consciência.

Via-se recuar, recuar...

Sim, sim, Maria Iza recebera dele tão somente considerações respeitosas; contudo, Julieta surgia-lhe agora ... 

Fora-lhe a companheira da juventude, quarenta anos antes ... 

Menina de condição modesta agüentara-lhe a ingratidão. 

Cedera aos seus caprichos de moço impulsivo e passara a aguardar-lhe um filhinho, confiando no casamento. 

Examinando, porém, as próprias conveniências obrigara Julieta a sujeitar-se a vergonhoso processo abortivo e, em seguida, ao vê-la frustrada, abandonou-a na vala do meretrício.

Rezende, atormentado em dolorosas reminiscências, inquiria a si próprio se a calúnia de Maria Iza seria a resposta do destino ao sarcasmo em que lançara Julieta ... 

Onde encontrar a vítima de outra época? 

Por outro lado, ali estava Dona Francina, a reclamar-lhe assistência, e Maria Iza, a quem devia perdoar a seu turno.

Tateava o crânio em fogo.

Atravessava o primeiro dia de consciência acordada, depois da morte, e parecia estar no ínfero mental, desde muito tempo.

Caiu a noite e Rezende permaneceu aflito junto da esposa, tentando em vão, falar-lhe durante o sono ...

Manhã cedo, Dona Francina levantou-se, orou à frente da própria imagem dele, na foto de cabeceira, tomou grande ramo de flores e saiu na direção de um templo.

Apolinário seguiu-a, reconhecendo emocionado, que a esposa encomendara um ofício religioso, a benefício da sua felicidade.

Findas as preces, Dona Francina tocou para o cemitério.

Só então Rezende veio saber que a leal companheira comemorava o sexto mês de sua partida.

Cento e oitenta e três dias de inconsciência na vida espiritual!

Assombrado, fitou a esposa, que se ajoelhara à frente do seu próprio túmulo. 

Entre angustiado e curioso, inclinou-se para a lápide e soletrou espantadiço:-

- “Aqui jaz Apolinário Rezende.” 

E, em letras menores:-

- “Orai pelo descanso eterno de sua alma”.

Quando leu as palavras “descanso eterno”, Rezende passou a refletir sobre as agonias morais a que era submetido, desde a véspera, e, embora sentindo imenso desejo de chorar esqueceu a quietude do campo santo e desferiu, em desespero, enorme gargalhada ...

 

Livro:- Contos desta e Doutra Vida

IRMÃO X 

Francisco Cândido Xavier



terça-feira, 6 de setembro de 2016

A resposta de Enéas


  A resposta de Enéas

Enquanto se esperava o médium Palhares, o velho Azevedo Cruz, doutrinador das sessões, confiava o bigode longo, comentando mordaz:

— Não reparam a ausência do Guilhermino? 


Desde muito tempo, não comparece.

— Que terá acontecido? — indagou D. Amália, piscando os olhos.

— Não sabem? — tornou o orientador do grupo — o nosso amigo caiu fragorosamente. 


Não sai do pano verde, nem se afasta do mau caminho.

— Que diz? interrogou Dona Margarida, fisgando o interlocutor por cima dos óculos — o Guilhermino desviou-se tanto? será possível?

— Ora, ora — aventurou uma senhora na turma, sussurrando —, a esposa dele é uma infortunada. 


Guilhermino é bastante pervertido para entender o que sejam obrigações do lar.

Azevedo, olhar transbordante de malícia, acrescentou:-
— Nunca me enganou o patife. 

Velho malandro, o Guilhermino! 

Simples lobo na pele de ovelha. 

Conheço-lhe as patranhas, desde o primeiro dia em que me buscou, pedindo socorro.

E a conduta do ausente foi ali examinada, minúcia por minúcia.

Chamavam-lhe irmão de quando em quando, classificando-o de velhaco, alguns instantes depois.

Quando a pequena assembléia apareceu desinteressada, alguém recordou que Palhares estava demorando. 


Bastou isso para que se concentrasse a atenção geral do retardatário.

Após verificar que ninguém se encontrava à escuta nas vizinhanças, a Senhora Fagundes começou:-
— Nosso médium já não é mais o mesmo... 


Nunca chega à hora, nada recebe de útil nas sessões e vive sempre desapontado...

— Não sabe o que vem acontecendo? — perguntou uma companheira irrequieta  ...

— Palhares anda agora bebericando... 

Por três vezes, senti-lhe pronunciado cheiro de vinho. 

Como poderá ele, desse modo, receber mensagens elevadas? 

Quando o médium esquece a responsabilidade própria, tudo vai por água abaixo...

O doutrinador fixou um gesto de puritano e considerou:

— Enquanto permanece ele no bar, demoramos aqui, aguardando reuniões improdutivas.
 
Palhares, presentemente, é um fracasso. 

Estou cansado de orar e rogar inutilmente...

Decorridos alguns instantes, entra a vítima, identificando sorrisos acolhedores.

Modifica-se a conversação.

Ao passo que o companheiro relaciona os atropelos havidos no lar, comenta-se a laboriosa missão dos médiuns. 


A maledicência de minutos antes converte-se em observações de suposto entendimento fraternal.

Palhares chega a sentir-se reconfortado e feliz.

Reúne-se à assembléia, em derredor da mesa.

Azevedo ora longamente, rogando a presença de Enéias, o sábio mentor dos trabalhos espirituais.

Silêncio profundo.

Enéias, contudo, não aparece.

Encerrada a sessão, os companheiros fixam o médium, quase irritados, como se fora ele exclusivamente o responsável pela ausência de comunicações com o plano superior.

Azevedo não consegue sopitar os pensamentos íntimos e exclama:-
— Não posso compreender. 

Há mais de oito meses, estamos como que abandonados. 

Ora-se com fervor, pedimos humildemente; entretanto, Enéias não responde aos nossos apelos.

Todos concordam desapontados.

Na semana seguinte, reúnem-se de novo.

Nessa noite, Palhares está a postos, na hora convencional, mas espera-se pelo velho Azevedo.

Dona Amália, depois de comentar as desilusões sofridas com os vizinhos, afirmando-se perseguida de Espíritos das trevas, começa a tagarelice venenosa da noite. 


Baixando o tom de voz, sussurrou:

— Disseram-me no bairro que “seu” Azevedo não está procedendo como quem reconhece os deveres próprios. 


Meu primo afirmou que estamos redondamente enganados, que o nosso doutrinador perdeu o juízo, logo após a viuvez. 

Notificou-me, confidencialmente, tê-lo encontrado, por mais de uma vez, em situação equívoca, desfazendo talvez a felicidade de um lar honesto.

Palhares inclinou-se, esboçou um sorriso brejeiro e acentuou:

— Não costumo comentar os defeitos dos outros e, mormente, em se tratando dum irmão na fé; sempre estimei o silêncio da verdadeira caridade, mas, aqui para nós, a situação é de fato alarmante. 


Há no episódio muita coisa a lamentar. 

Inspira pena o companheiro infeliz.

E como o velho Arantes provocasse uma informação sólida, para conhecer a procedência da acusação, o médium deu de ombros e respondeu:-
— Pelo menos é o que me disse um colega da repartição.

— Absurdo! — bradou o Sr. Siqueira, exasperado — onde chegaremos com semelhantes disparates? 


Azevedo não passa de miserável hipócrita.

Continuavam a operar as línguas venenosas, quando o companheiro penetrou o recinto.

Efusivas e calorosas saudações.

Nem parecia que se comentava tão escabroso assunto.

Durante meses a fio, a situação do grupo mantinha-se inalterada.

Acusavam-se as outras escolas religiosas, apontavam-se os infelizes que a provação atirava ao escárnio público, discutia-se a posição de lares alheios. 


E, quando faltavam indivíduos para o pasto da maledicência, maldiziam as instituições da época, criticavam os homens de responsabilidades do tempo, duvidavam de todos, espalhando-se leviandades e estabelecendo contradições.

Antes das preces de abertura, era necessário retirar os cinzeiros pletóricos, abrindo-se janelas para melhorar as condições do ambiente. 

Decorrido mais de um ano, que se caracterizara pela excessiva conversação dos encarnados, com absoluto silêncio da esfera invisível, Azevedo se revelou, certa noite, mais preocupado e mais emotivo.

Estabelecido o círculo de companheiros, o velho doutrinador começou a orar, sentidamente, entre lágrimas.

Salientava o tempo de doloroso mutismo dos mentores espirituais, rogava esclarecimentos, pedia socorro, implorando auxílio dos protetores benevolentes. 


Lamentando a ausência de Enéias, o generoso orientador invisível que tantas vezes se manifestara noutros tempos, o chefe do grupo terminava a súplica:-
— Oh! bem-amados amigos da esfera superior, não nos abandoneis... 


Se estamos em caminho errado, esclarecei-nos! por que permaneceis distantes há tanto tempo?! 

Por quem sois, atendei-nos! 

Ouvi as nossas rogativas, reaproximai-vos de nós, por amor de Deus!...

A essa altura, o pranto embargou-lhe a voz.

A pequena assembléia chorava também, igualmente comovida.

Quando a meditação séria empolgou a maioria dos corações, incorporou-se Enéias, valendose de Palhares, e exclamou para todos, pronunciando cada expressão em tom enérgico e amigo:-
— Hoje, não iniciamos a palavra espiritual, rogando ao Senhor vos conceda paz e, sim, pedindo-vos, com interesse, guardeis a paz que o Senhor já nos concedeu. 


Vossa prece comoveu-nos a alma; entretanto, estais equivocados. 

Nunca estivemos ausentes do trabalho nobre. 

Aqui nos conservamos invariavelmente no cumprimento do dever, que é fonte de alegrias. 

Há mais de um ano, porém, utilizais todo o tempo no comentário venenoso e cruel.

Quando não criticais as nações, as coletividades, os lares e as reputações alheias, costumai ferir-vos uns aos outros. 


Como vedes, meus irmãos, estamos a esperar por vós, que tanto vos distanciastes da obrigação justa. 

Recordai que é necessário empregar o verbo, no sentido da criação superior. 

Falai, construindo com a vossa palavra algo de útil para a vida eterna. 

Não temos, por enquanto, outra mensagem. 

Quando terminardes as sessões de maledicência, estaremos prontos a iniciar convosco a sessão de Espiritismo construtivo e de Evangelho redentor.

Daí a momentos, a reunião estava finda e, naquela noite, todos se retiraram do recinto, em silêncio.


Livro:- Pontos e Contos
Irmão X
Francisco Cândido Xavier