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segunda-feira, 25 de abril de 2016

A Doutrina Espírita e o Elemento Humano


 
A Doutrina Espírita e o Elemento Humano

 A seara espírita é um campo de experiências. 


Seria ilusão esperar que todos quantos se engajam no trabalho espírita, nesta ou naquela faixa, por mais ardoroso que seja o desejo de servir, já estejam completamente desligados de uns tantos hábitos, contraídos nos ambientes de onde vieram. 

Não. 

As tendências religiosas de origem, os cacoetes adquiridos na profissão ou na vida social e os impulsos do próprio temperamento não se modificam de um momento para outro. 

O fato, portanto, de ingressarmos nas fileiras espíritas, seja pela dor, seja pela reflexão profunda ou por outro motivo, não significa que tenhamos deixado lá fora todas as propensões ou, afinal, toda a bagagem que nos acompanha. 

Não se diz a toda hora, e é certo, que o meio espírita é uma escola? 

Escola pressupõe aprendizado e melhoramento.
 
Como a Doutrina Espírita recebe adesões de pessoas oriundas de todas as classes sociais, assim como de todas as correntes religiosas e de todos os níveis da escala humana, as frentes de trabalho no movimento espírita, quer no campo assistencial, quer no campo doutrinário, mediúnico etc., reúnem elementos muito variados entre si, com temperamentos, concepções e costumes em tudo e por tudo diferentes. 


É natural, até certo ponto, que haja alguns problemas por falta de entrosamento. 

Todos, afinal, querem trabalhar e todos são necessários à realização da obra comum. 

Mas nem todos sempre se identificam nas ideias, nos modos de conduzir as tarefas e assim por diante. 

Todos — é bom frisar — desejam contribuir com sua parcela de esforço.

E todos devem ter oportunidades de prestar serviço.
 
O problema não está propriamente no fato de haver desigualdades individuais por causa da formação, estrutura psicológica, educação, cultura etc., mas na falta, às vezes, de tato para contornar as dificuldades entre grupos heterogêneos e aproveitar bem o que cada qual possa dar de si a despeito das divergências ou até mesmo de atritos passageiros.


Nos grupos mais reduzidos, como é o caso de uma diretoria de cinco ou seis pessoas, muitas e muitas vezes há incompatibilidades temperamentais e desentendimentos ocasionais, pois, como ensina a sabedoria popular, cada cabeça, cada sentença!
 
Homogeneidade absoluta não é mesmo possível com um material humano ainda em processo reencarnatório de melhoramento. 
Mas, é com esse material humano, sujeito aos altos e baixos da experiência terrena, que se realizam as grandes obras. 
Se o nosso movimento tivesse de esperar que aparecessem somente trabalhadores já depurados de seus velhos compromissos ou sem arestas contundentes, nada teria sido feito até agora. 
Há pessoas, no entanto, que ainda não compreendem a nossa situação e, por isso, de quando em quando fazem esta pergunta:-
 – Mas, existem dessas coisas no meio espírita? 
E por que não? 
O meio espírita não é uma comunidade de anjos, mas de gente de carne e osso, com os seus defeitos e suas qualidades. 
É verdade que certos casos já não deviam ocorrer em nosso meio. 
São casos realmente discrepantes, de projeção, campanhas anônimas etc. etc. 
Isso prova que ainda existe muita fraqueza humana do lado de cá, tanto quanto em outras atividades humanas.
 
Não esperemos, pois, que haja um ajustamento perfeito em todos os campos de trabalho espírita, já que as criaturas humanas são mesmo desiguais. 
Entretanto, pela experiência já vivida e pelo que já se aprendeu na Doutrina até agora, certas dificuldades, causadas pela incompreensão humana, já não deveriam ocorrer entre nós. 
 Afinal, ninguém é perfeito, ninguém chega à seara espírita sem influências do passado, sem alguns prejuízos da educação ou do ambiente de origem. 
Mas a casa espírita é uma escola. Sim, escola onde cada qual deve se esforçar para melhorar.
 
Afinal de contas, o que estamos fazendo no meio espírita se ainda estamos presos às mesmas paixões ou se ainda estamos presos às mesmas tendências negativas de outrora? 
Se ao cabo de tudo, nada mudou em nossa vida, pois continuamos com as mesmas ideias, os mesmos sentimentos, os mesmos hábitos, evidentemente não incorporamos bem os princípios espíritas ao dinamismo de nossa vivência cotidiana. 
É assunto para reflexões mais sérias.
Fonte:- “Ponderações Doutrinárias”, coletânea de artigos publicada pela Federação Espírita do Paraná (FEP).

Deolindo Amorim nasceu na Bahia em 1906 e desencarnou no Rio de Janeiro, em 1984. 
É considerado, ao lado de Carlos Imbassahy e Herculano Pires, um dos maiores pensadores espíritas das Américas. 
De estilo professoral, extremamente didático e elegante, Deolindo foi um dos maiores divulgadores do espiritismo como cultura e voltado para a análise de questões da atualidade. 
Fundou o Instituto de Cultura Espírita do Brasil (Iceb), foi um dos idealizadores da Associação Brasileira de Jornalistas e Escritores Espíritas (Abrajee) e graças ao seu empenho, em conjunto com a Liga Espírita do Brasil, realizou-se no Rio de Janeiro, em 1949, o II Congresso Espírita Pan-Americano.
 
Obras:- 
- Espiritismo e Criminologia; 
- O Espiritismo e as Doutrinas Espiritualistas; 
- Africanismo e Espiritismo; 
- O Espiritismo e os Problemas Humanos; 
- Ideias e Reminiscências Espíritas; 
- Allan Kardec, o Homem e o Meio, dentre outras.
 
Fonte Original desta Postagem
PENSE
"Pensamento Social Espírita"

Escreve Deolindo Amorim
 

sábado, 16 de novembro de 2013

Ética e Progresso


Ética e Progresso

Assim como o organismo humano e o organismo animal estão sujeitos a doenças, muitas vezes incuráveis e dolorosas, também o organismo social adoece em pequena ou grande escala. 
 
Por isso mesmo, há uma disciplina que se ocupa justamente das doenças da sociedade:-
- A Patologia Social. 
 
É matéria, principalmente, do interesse dos sociólogos, antropólogos e especialistas em Psicologia Social.

Mas, não se deve estabelecer analogia entre as doenças da sociedade e as doenças do ser humano, individualmente, como já se fez noutros tempos. 
 
Sim, noutros tempos, porque havia em determinados círculos intelectuais, a bem dizer no apogeu da concepção positivista, a ideia de que os fenômenos sociais têm correspondência com os fenômenos biológicos. 
 
Então, as doenças do indivíduo e as da sociedade poderiam ser consideradas analogicamente. 
 
E não faz mal lembrar que, por influência desse pensamento, a Psicologia ficou “enquadrada” na Biologia por muito tempo, tendo-se tornado ciência autônoma à custa de muita discussão e, assim, pela força mesma das coisas.

É certo que a sociedade, com os seus desequilíbrios, concorre muito para que indivíduos e grupos adoeçam. 
 
Vive-se, hoje, por exemplo, em constante estado de tensão, porque a maioria está ficando cada vez preocupada com a poluição nos grandes centros urbanos, a “disparada” do custo de vida, a insegurança nas ruas, nos ônibus, no trabalho e até mesmo dentro de casa, onde cada qual deveria ter o seu refúgio tranquilo, depois da luta cotidiana do ganha-pão.

Alguém já disse que estamos sob uma “civilização do medo”. Realmente. 
 
Tem-se medo de tudo, hoje em dia, porque os perigos acompanham os passos de todos, homens e mulheres, moços e velhos. 
 
É inevitável, pois, que a repercussão da própria inquietação social provoque abalos emocionais muito profundos na vida pessoal e abra caminho para neuroses, distúrbios cardíacos, formação de úlceras etc. 
 
E se o elemento humano já está um pouco predisposto, obviamente ainda será mais rápido o efeito da conjuntura social, cujos atritos afetam o sistema nervoso de muita gente. 
 
Todavia, pelo que se pode colher através de estudos divulgados atualmente, até certo ponto há uma relação entre a patologia social e a patologia individual.

As “doenças da sociedade”, como dizem alguns observadores, não podem ser equiparadas indiscriminadamente às doenças do homem em si mesmo, uma vez que os mecanismos biológicos são de natureza diferente da natureza dos mecanismos que acionam os processos sociais. 
 
Já se cometeu esse engano anteriormente — convém dizer de novo — porém, hoje os estudos sociais têm uma visão muito mais lúcida e desenvolvida a respeito das relações do ser humano com o meio social.

O que existe, entretanto, e é justamente o que nos interessa, é a influência das tensões sociais no psiquismo individual, por causa dos traumas e dos abalos emocionais a cada hora. 
 
As notícias de tragédias, roubos, assaltos, suicídios, desfalques vultosos, assim como de perseguições e pressões políticas, muitas vezes exploradas com ênfase na TV ou nas manchetes, sensibilizam imediatamente e causam transtornos profundos em muitas pessoas. 
 
É o ônus que se paga ao desenvolvimento tecnológico da comunicação. 
 
Por isso mesmo, há pessoas que resolveram desligar-se de tudo e não tomar conhecimento de notícias, justamente para que não sejam emocionalmente envolvidas.

Ainda que seja discutível a designação de patologia social para os que não veem propriedade nessa expressão, verdade é que a sociedade tem aspectos negativos ou doentios. 
 
E uma sociedade cujas crônicas se enchem diariamente de crimes, violências e degradação moral não é realmente uma sociedade doente?

O fenômeno, infelizmente, não está configurado entre as fronteiras de um país, pois é de ordem geral. 
 
Se existe, de fato, um aspecto doentio na sociedade, e não seria possível fechar os olhos à evidência, pois os tumores e as chagas sociais são ostensivas e deprimentes, precisamos alargar a nossa ótica e observar também o aspecto sadio, isto é, o que vemos de grande e humanitário em todas as latitudes da paisagem social.

Ao lado da miséria material e da miséria moral, tanto quanto do egoísmo e da velhacaria ou da desumanidade e do vício, que corrompe e degrada, estão os belos e edificantes exemplos de amor e renúncia, dedicação e dignidade, contrabalançando a onda de ódio e decadência moral. 
 
Há muita gente trabalhando de corpo e alma em benefício do próximo, desinteressadamente; muita gente, afinal, que está curando as feridas da alma nos organismos individuais para curar as feridas do organismo social. 
 
Neste particular, a ação espírita está desempenhando um papel dos mais positivos.

Estão aí, à vista de todos, as obras de assistência à infância e à velhice, obra criada e sustentada com amor, acima dos próprios interesses pessoais em muitos casos. 
 
O trabalho de reerguimento espiritual e de socorro material realizado por equipes espíritas nos ambientes mais obscuros da sociedade, assim como nas prisões e nos pontos mais afastados dos centros asfaltados, é um esforço persistente e desprendido em benefício da própria coletividade.

Não se trata apenas de dar o pão para o corpo ou vestir os maltrapilhos, que inspiram piedade, pois é preciso, indispensavelmente, esclarecer e educar a criatura humana, ajuda-la a reerguer-se conscientemente pelo conhecimento e pelo amor. 
 
Pois é exatamente o que faz o elemento espirita.

Sempre que se consegue retirar o homem do antro do crime e do vicio, reintegrando-o na convivência pacífica e honesta, naturalmente se dá um passo a mais na eliminação das feridas que sangram na sociedade.

Neste grande trabalho, muitas vezes anônimo, se engajam obreiros de diversos credos, como também pessoas vinculadas a vários movimentos, religiosos ou não. 
 
Tem, aí, o movimento espírita uma posição relevante, justamente porque vem realizando cada vez mais um trabalho constante de educação, assistência e reerguimento espiritual, sem o que não haverá melhoramento do homem em termos profundos.

Seria difícil firmar um diagnóstico exato dos males sociais.
 
 Cada qual encara os problemas por um prisma, de acordo com a sua formação e suas inclinações. 
 
Há um ponto, entretanto, em que a inteligência das mais argutas e desapaixonadas pensa de um modo convergente:-
- A sociedade ressente-se profundamente da falta de valores éticos. 
 
Daí resulta o acentuado e espantoso descompasso entre o desenvolvimento material e o adiantamento espiritual.

O mundo dos negócios, em grande parte, está mais voltado para o êxito imediato sem a preocupação de saber o que deve e o que não deve ser lícito. 
 
A ética fica inteiramente fora de cogitações em muitos casos.
 
 É natural que haja o aceleramento econômico, como é natural e necessário que se enriqueça o aparelhamento tecnológico, mas também é necessário, senão indispensável, que não se despreze o lado ético das transações.

Deve haver um ponto de limite moral nas ambições humanas. 
 
Por isso mesmo é que alguns pensadores notam a flagrante falta de ética e acham, com razão, que a sociedade está sofrendo graves consequências por causa do contraste entre as realizações materiais, inegavelmente impressionantes, e os padrões de moralidade na vida particular e na vida social.

Albert Schweitzer, o homem que, deixando as comodidades da chamada “grande civilização”, foi para a África longínqua, onde realizou verdadeiro apostolado entre populações pobres e atrasadas. 
 
Desconfiava muito da cultura exterior, justamente porque, como pensador e humanista, médico e homem de grande coração, sentia que a falta de ética estava ameaçando o destino da civilização. 
 
Seria um visionário? 
 
Ou seria Schweitzer muito mais realista do que certos homens práticos, para os quais somente os valores utilitários e o poder das técnicas têm significação na vida humana?...

E as doenças da sociedade, em grande parte, não decorrem exatamente da ausência de moralidade ou de respeito ao escrúpulo e ao foro da consciência, sede da Lei Moral, como ensina a Doutrina Espírita? 
 
Claro que Schweitzer não era um sonhador, mas um observador da realidade humana.

Pois bem, há mais de um século — é bom que muita gente saiba disto — a Doutrina Espírita já se pronunciava sobre este problema, como que antevendo a situação de hoje.
 
 Recorramos apenas à questão 785, de “O Livro dos Espíritos”:-
- Há duas espécies de progresso, que se apoiam mutuamente e que, entretanto, não marcham em paralelo: o progresso intelectual e o progresso moral. 
 
O equilíbrio entre as duas ordens de progresso é questão de tempo, ainda segundo o ensino espírita.

Já houve muito progresso, inegavelmente, nas instituições, nas ciências, e assim por diante, o que, aliás, está previsto no mesmo texto espírita, porém os acontecimentos deste meio século se sucedem de tal forma e com tanta agressividade que exigem mais reflexão a respeito dos padrões de ética para evitar, tanto quanto possível, maior descalabro social.

Todos os movimentos preocupados com os problemas espirituais, embora não se descuidem dos problemas terrenos, devem empregar a inteligência, a criatividade e o verdadeiro espírito de serviço na cruzada de educação do homem, mas uma forma de educação capaz de penetrar-lhe o mundo íntimo e despertá-lo ainda em tempo.

Neste campo, sem a menor dúvida, muito mais ainda será pedido ao movimento espírita; -
 
- Pois uma Doutrina que explica a sobrevivência após a morte com o testemunho dos fatos; 
 
- Uma Doutrina que nos fala da justiça divina sem castigos eternos, mas à luz de uma filosofia que infunde esperança e coragem, com apoio da reencarnação; 
 
- Uma Doutrina, enfim, que nos mostra o próprio Evangelho aplicado à vida em todas as circunstâncias tem muito o que oferecer à sociedade como remédio para as feridas que se abrem de alto a baixo, em todos os níveis.


Fonte:- Revista “Aurora”, agosto de 1982, págs. 4 e 5, ano IV, nº 9 – Duque de Caxias-RJ.


Deolindo Amorim nasceu na Bahia em 23 de janeiro de 1906 e desencarnou no Rio de Janeiro, em 24 de abril de 1984. 
 
É considerado, ao lado de Carlos Imbassahy e Herculano Pires, um dos maiores pensadores espíritas do Brasil. 
 
Jornalista, sociólogo, escritor espírita de estilo professoral, extremamente didático e elegante, Deolindo foi um dos maiores divulgadores do Espiritismo como cultura e voltado para a análise de questões da atualidade. 
 
Fundou o Instituto de Cultura Espírita do Brasil (ICEB), foi um dos idealizadores da Associação Brasileira de Jornalistas e Escritores Espíritas (Abrajee) e graças ao seu empenho, em conjunto com a Liga Espírita do Brasil, realizou-se no Rio de Janeiro, em 1949, o II Congresso Espírita Pan-Americano.

Obras:-
- Espiritismo e Criminologia; 
- O Espiritismo e as Doutrinas Espiritualistas; 
- Africanismo e Espiritismo; 
- O Espiritismo e os Problemas Humanos; 
- Ideias e Reminiscências Espíritas; 
- Allan Kardec, o Homem e o Meio, dentre outras.


Deolindo Amorim
 Outubro de 2013